O Dia Internacional do Chocolate assinala-se a 13 de setembro. O cacau cresce perto do equador, e o grosso do fornecimento mundial sai da África Ocidental. Essa concentração explica o que vem a seguir.
História e origem da data
Circulam duas datas do chocolate: esta, a 13 de setembro, e outra em julho. Nenhuma das duas consta entre os dias internacionais que as Nações Unidas proclamam.
O curioso aparece quando se procura quem proclamou a de 13 de setembro. Circula a versão de que assinala o nascimento de um fabricante norte-americano e de que partiu da indústria dos doces.
Nenhuma das fontes que foi possível consultar o documenta. A associação norte-americana de fabricantes de doçaria bloqueou o acesso ao seu site. E o arquivo histórico da Hershey devolveu um texto sobre o Titanic em vez da ficha que dedica ao seu fundador. O que se encontra são calendários de efemérides que se copiam uns aos outros.
Porque subiu tanto o chocolate
O preço do cacau subiu 136 % entre julho de 2022 e fevereiro de 2024, segundo uma nota da UNCTAD sobre a subida do chocolate e o clima, de março de 2024. A tonelada passou os 10.000 dólares no mercado de futuros a 26 de março de 2024, pela primeira vez.
A causa que esse organismo põe à frente é o clima. O fenómeno El Niño trouxe mais calor e mudou a distribuição das chuvas, e o cacau é sensível às duas coisas.
O excesso de chuva no Gana e na Costa do Marfim no último trimestre de 2023 disparou o vírus do inchaço dos rebentos do cacaueiro (cacao swollen shoot virus). E também a podridão-parda (black pod disease), uma afeção que apodrece e endurece o fruto. A Organização Internacional do Cacau (ICCO) esperava para a campanha de 2023-2024 um défice mundial de cerca de 374.000 toneladas, contra as 74.000 da anterior, segundo a mesma nota (em inglês).
Na África Ocidental a UNCTAD fala de milhares de pequenos produtores afetados, com as colheitas a cair por causa das ondas de calor, das chuvas intensas e de outros riscos climáticos.
Como se vive em Portugal e no Brasil
O que a Balança Alimentar do INE mede em Portugal não é chocolate: é uma categoria que junta café, cacau e chocolate, com o café lá dentro. Essas disponibilidades diárias passaram de 25,1 gramas por habitante em 2015-2019 para 29,3 em 2020-2024, mais 16,7 %, segundo a Balança Alimentar Portuguesa do INE, de outubro de 2025. Mede a oferta, não o consumo.
O Brasil está no outro extremo da cadeia: produziu 297.509 toneladas de cacau em amêndoa em 2024, segundo a Produção Agrícola Municipal do IBGE. E lá dentro há um braço de ferro.
A Bahia esteve à frente do Pará durante os primeiros quarenta e três anos da série. Em 2017 o Pará ultrapassou-a pela primeira vez desde que o IBGE publica o dado, em 1974. Desde então o primeiro lugar troca de mãos: a Bahia voltou à frente em 2018 e em 2023.
| Ano | Pará | Bahia |
|---|---|---|
| 2010 | 59.537 | 148.254 |
| 2017 | 116.358 | 106.246 |
| 2024 | 137.455 | 137.028 |
Em 2024 o Pará ficou à frente por 427 toneladas, com 46 % da colheita nacional cada um. Quem move o marcador é o Pará, que cresceu 131 % nesses catorze anos enquanto a Bahia cedia 7,6 %.
O que convém desmontar
A primeira crença é que por trás da data está um organismo internacional. A data não consta na lista de dias internacionais das Nações Unidas, e não se localizou resolução, instituição proclamante nem documento fundador.
A segunda é que o chocolate encareceu porque tudo encareceu. O que disparou foi o grão. A UNCTAD atribui essa subida do cacau ao clima, e a ICCO esperava um défice de cerca de 374.000 toneladas para a campanha de 2023-2024.
A terceira é que os problemas do cacau ficam longe de quem o come. O Gana e a Costa do Marfim produziram mais de metade do cacau mundial, e são os dois países onde se estimou que trabalhavam milhões de crianças, algumas a partir dos cinco anos. O estudo foi publicado em 2020 pela NORC, da Universidade de Chicago, para o Departamento do Trabalho dos Estados Unidos, com os governos dos dois países, a World Cocoa Foundation e organizações da sociedade civil. É o assunto de que trata o Dia Mundial contra o Trabalho Infantil.
O que podes fazer hoje
- Olha de onde vem o grão. O número do rótulo diz quanto cacau leva. De onde saiu di-lo a origem; pelas condições em que foi colhido responde, quando muito, uma certificação.
- Procura chocolate feito no país produtor. Não é o mesmo exportar grão que exportar tablete: o segundo deixa na origem o trabalho de o transformar.
- Quando vires o preço subir, lembra-te da colheita. Por trás da subida há colheitas quebradas pelas ondas de calor, pelas chuvas intensas e por outros riscos do clima.
O Dia Internacional do Café conta a mesma assimetria com outra cultura. O calendário de 13 de setembro reúne o que mais se assinala nesse dia.
#DiaInternacionalDoChocolate
Verificado pela redação de Dia Internacional
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