No mundo há mais de 70 milhões de pessoas surdas que comunicam em mais de 300 línguas gestuais diferentes, idiomas completos com a sua própria gramática. Para reivindicar o direito a usá-las, a 23 de setembro celebra-se o Dia Internacional das Línguas Gestuais, proclamado pela Assembleia Geral da ONU na resolução 72/161.
História e origem do Dia
A Assembleia Geral da ONU proclamou a data a 19 de dezembro de 2017 através da resolução 72/161, uma proposta impulsionada por Antígua e Barbuda e copatrocinada por 97 países. Foi celebrada pela primeira vez em 2018, no âmbito da Semana Internacional das Pessoas Surdas. A escolha do 23 de setembro não é ao acaso: é o dia em que, em 1951, foi fundada a Federação Mundial de Surdos, que hoje reúne 135 associações nacionais.
Porque se celebra?
Porque durante mais de um século se proibiu as pessoas surdas de usar a sua língua. Depois do Congresso de Milão de 1880, o ensino impôs o oralismo e castigou o gesto nas salas de aula, atrasando o reconhecimento destas línguas. A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da ONU consagrou finalmente a língua gestual como um direito linguístico e cultural. O dia reivindica o lema da comunidade surda: «nada sobre nós sem nós».
Um mito que convém desmontar
A língua gestual não é universal. É um erro muito comum pensar que todas as pessoas surdas do mundo se entendem entre si. Cada país tem a sua: a LGP em Portugal, a Libras no Brasil, a Língua Gestual Espanhola ou a Mexicana, com vocabulários e gramáticas diferentes. Também não é mímica nem uma simples tradução da fala: tem regras próprias, exprime o tempo e o espaço de forma visual e usa as expressões faciais como parte da sua gramática. Existe ainda um Sistema de Sinais Internacional, uma espécie de língua franca usada em congressos, mas que não equivale a um idioma nativo.
Como se vive em Portugal e no Brasil
Em Portugal, a Federação Portuguesa das Associações de Surdos dinamiza a data e são cada vez mais os noticiários e atos públicos com intérprete de LGP. No Brasil, a comunidade surda celebra a Libras, presente na escola e nos serviços públicos desde a sua regulamentação em 2005, ainda que persistam em ambos os países desafios de acesso a intérpretes e a uma educação bilingue de qualidade.
A cultura surda, muito mais do que uma língua
As línguas gestuais não são apenas um sistema de comunicação: são o coração de uma identidade cultural com história, humor, literatura, poesia visual e teatro próprios. A comunidade surda reivindica-se como uma minoria linguística e cultural, e não como um grupo definido por uma carência médica. Muitas pessoas surdas escrevem mesmo «Surdo» com maiúscula para sublinhar esse pertencer cultural, tal como se faz com uma nacionalidade.
Reconhecer isto muda por completo a abordagem. Não se trata de «corrigir» a pessoa surda para que encaixe num mundo ouvinte, mas de construir uma sociedade acessível onde a língua gestual tenha o mesmo estatuto que qualquer idioma. Os estudos mostram, além disso, que as crianças surdas que acedem cedo a uma língua gestual desenvolvem melhor a linguagem, o pensamento e as relações sociais do que as que crescem privadas dela. Garantir o acesso à língua gestual desde a infância não é um luxo: é um direito básico.
Como participar
- Aprenda alguns gestos básicos: cumprimentar ou agradecer em língua gestual já é um gesto de inclusão.
- Exija legendagem e intérpretes em atos públicos, vídeos e televisão.
- Apoie as associações de pessoas surdas do seu país.
- Fale de frente e com boa luz ao comunicar com uma pessoa surda.
- Partilhe a data com #DiaDasLínguasGestuais.
Reconhecer uma língua é reconhecer quem a fala. As línguas gestuais não são uma barreira, mas uma ponte: garantir o seu uso é garantir que milhões de pessoas possam aprender, trabalhar e viver em igualdade.
#DiaDasLínguasGestuais
Verificado pela redação de Dia Internacional
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