A data foi escolhida pelo aniversário de Beethoven, um homem que ficou surdo e passou os últimos anos cada vez mais isolado, comunicando por escrito em cadernos que ainda se conservam. O Dia Internacional contra a Solidão Não Desejada assinala-se a 16 de dezembro, e a sua posição no calendário também não é casual: cai na semana em que a solidão mais se nota.
História e origem da data
Convém dizê-lo com precisão: a efeméride ainda não é oficial nas Nações Unidas. É impulsionada por organizações sociais dedicadas ao acompanhamento ( a Fundación Social Padre Ángel e a Mensajeros de la Paz, entre outras ), e há entidades ligadas às pessoas idosas que pediram formalmente à ONU que a declare.
Beethoven não foi escolhido por acaso: os seus cadernos de conversação, onde os interlocutores escreviam o que lhe queriam dizer, são um dos testemunhos mais concretos que existem sobre o que significa perder o acesso aos outros. Essa condição de data em construção não lhe retira valor, mas obriga a apresentá-la pelo que é. E explica que a sua implantação seja ainda maior no espaço ibero-americano do que no resto do mundo, ao contrário das jornadas nascidas de uma resolução internacional.
O que é exatamente
O adjetivo importa. Não desejada distingue a solidão escolhida ( estar só por decisão própria, o que pode ser saudável e procurado ) daquela que se sofre: o desajuste entre as relações que se têm e as de que se precisa. Pode estar-se rodeado de gente e senti-la, e pode viver-se só sem a padecer.
E também não é apenas assunto de pessoas idosas, ainda que seja o grupo que primeiro vem à cabeça. Os estudos dos últimos anos apontam de forma consistente para a população jovem como um dos escalões onde mais se declara, um dado que desarruma porque contradiz a imagem de uma geração hiperligada.
O que convém desmontar
O primeiro erro é tratá-la como um estado de espírito passageiro. A solidão não desejada prolongada associa-se a pior saúde cardiovascular, pior sono, mais declínio cognitivo e maior risco de depressão: é um fator de saúde, não uma queixa. O segundo é confundir contacto com vínculo; viver acompanhado, ter muitos seguidores ou falar diariamente com clientes não protege por si só. E o terceiro, o mais frequente em dezembro, é pensar que se resolve com uma visita por ano: o que funciona, segundo os programas avaliados, é a relação sustentada, não o gesto natalício.
Como se vive em Portugal e no Brasil
Em Portugal o tema tem peso próprio por razões demográficas: é um dos países mais envelhecidos da Europa e o número de pessoas idosas a viver sozinhas é elevado, sobretudo no interior. Existem linhas de apoio, programas autárquicos de deteção e projetos de vizinhança organizada, e o debate passou do assistencial para o urbanístico: como se desenha um bairro onde as pessoas se cruzem.
No Brasil, a rede familiar alargada amorteceu tradicionalmente o problema, mas isso está a mudar com a urbanização, a migração interna e o envelhecimento acelerado. As grandes cidades concentram já perfis de isolamento semelhantes aos europeus, com o agravante de os sistemas de apoio formal serem mais frágeis e o peso recair quase todo sobre a família.
Como participar a 16 de dezembro
- Telefone antes das festas, e não durante: a semana anterior é a que mais pesa.
- Proponha algo concreto ( um café, um passeio ) em vez de um genérico vamos ver-nos.
- Repare em quem não aparece nos encontros destas semanas.
- Se é você quem a vive, diga-o na consulta médica: conta como informação de saúde.
- Mantenha o contacto em janeiro, que é quando desaparece o ruído e fica o silêncio.
Um compositor que deixou de ouvir, uma data que as Nações Unidas ainda não reconhecem e uma semana do ano em que o telefone toca menos do que devia. O 16 de dezembro pede pouco: uma chamada com data marcada. #SolidaoNaoDesejada
Verificado pela redação de Dia Internacional
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