O dia mais triste do ano foi inventado por uma agência de viagens para vender férias na época baixa. Não é uma leitura maldosa: foi o que aconteceu, e quem assinou a fórmula acabou a pedir publicamente que se deixasse de a usar. O Blue Monday cai na terceira segunda-feira de janeiro ( em 2026, a 19 ) e a sua história é um caso de manual de como uma campanha publicitária se transforma em dado.
História e origem da data
A fórmula misturava variáveis como o clima, a dívida acumulada depois das festas, o tempo decorrido desde as férias e o abandono das resoluções de Ano Novo. No papel parecia convincente. Assim que alguém olhava de perto, caía: as variáveis não têm unidades comparáveis, não se podem somar entre si e o resultado sai de uma equação construída ao contrário, a partir da conclusão que interessava.
O mais eloquente veio depois. O próprio Arnall demarcou-se da sua criação, descreveu-a como pseudociência e incentivou a refutar a ideia inteira. Nem sequer o autor a sustenta e, ainda assim, a data continua a aparecer todos os janeiros em títulos, montras e campanhas de desconto.
Porque resultou tão bem
Porque não era totalmente falsa, e é aí que está a sua eficácia. Janeiro é um mês objetivamente difícil no hemisfério norte: há menos luz, faz frio, a conta bancária vem tocada de dezembro e as resoluções começam a falhar. A campanha não inventou esse mal-estar; deu-lhe data, nome em inglês e aparência de cálculo.
E é aí que está o problema de fundo. Transformar o mal-estar num fenómeno de uma segunda-feira concreta sugere que na terça passa, e isso é precisamente o contrário de como funciona uma perturbação do humor. Uma quebra sazonal que começa em novembro e dura até março não cabe numa casa do calendário.
O que está de facto documentado
Convém não exagerar no ceticismo e deitar fora o problema com o boato. Existe uma perturbação afetiva sazonal, reconhecida clinicamente, em que os sintomas depressivos surgem de forma recorrente no outono e no inverno e remitem na primavera. Está associada à redução das horas de luz, é mais frequente quanto mais longe do equador e tem abordagens com evidência.
A diferença face ao Blue Monday é substancial: a perturbação sazonal dura meses, tem critérios de diagnóstico e exige avaliação profissional; o Blue Monday dura vinte e quatro horas e tem um patrocinador. Confundi-los é um mau serviço a quem está desde novembro sem levantar cabeça e ouve que o seu dia mau é a segunda-feira 19.
Como se vive em Portugal e no Brasil
Em Portugal a data instalou-se sobretudo como pretexto comercial: campanhas de desconto, promoções de viagens e publicações de marca que prometem combater a tristeza através do consumo. Em paralelo, ordens profissionais e associações de saúde mental publicam todos os anos o desmentido, com um alcance bastante menor do que o da campanha que desmentem.
No Brasil há uma ironia geográfica que quase nunca se menciona: no hemisfério sul, janeiro é verão. Todo o andaime do argumento ( frio, escuridão, pouca luz ) não se aplica ao Brasil, à Argentina ou ao Chile e, ainda assim, a data replica-se na mesma, importada tal e qual. É a melhor prova de que não descreve um fenómeno, apenas repete uma mensagem.
Como participar a 19 de janeiro
- Antes de partilhar, diga de onde vem: a campanha sustenta-se em quem a repete de boa-fé.
- Desconfie de quem lhe vender algo nesse dia: o desconto contra a tristeza é o modelo de negócio original.
- Se está assim há meses, não espere pela terça: fale com o seu profissional de saúde.
- Procure luz natural de manhã: é das poucas medidas com respaldo real no mal-estar de inverno.
- Pergunte a quem tem por perto como está a levar o inverno, e não como está a levar a segunda-feira.
Que o dia mais triste do ano tenha sido fixado por uma agência de viagens, e que o seu autor o tenha desautorizado sem que isso o travasse, diz bastante sobre como circulam os dados. O 19 de janeiro não é o pior dia: é o melhor exemplo. #BlueMonday
Verificado pela redação de Dia Internacional
Revisto a