Seis em cada dez crianças com menos de cinco anos sofrem habitualmente castigo físico ou agressão psicológica dentro de casa. O dado é da UNICEF e corresponde a cerca de 400 milhões de crianças em todo o mundo. O Dia Internacional da Parentalidade Respeitosa celebra-se a 2 de setembro e o seu propósito é simples de enunciar e difícil de aplicar: educar sem violência, impondo limites.
História e origem da data
Convém ser honesto com esta efeméride: não é respaldada por uma resolução internacional nem por um organismo com décadas de percurso. É uma data recente, impulsionada a partir do mundo da parentalidade e da divulgação, e a sua implantação é ainda desigual. O seu valor não está na instituição que a proclama, mas no assunto de que fala.
E esse assunto tem respaldo sólido. A Convenção sobre os Direitos da Criança e os comités que a desenvolvem sustentam há anos que nenhuma forma de castigo corporal é compatível com os direitos da infância, por mais leve que seja e por mais educativa que se considere a intenção.
O que é exatamente a parentalidade respeitosa
É uma abordagem que substitui o castigo pelo acompanhamento, sem abdicar dos limites. Assenta em dois pilares: a evidência sobre o vínculo entre o adulto e a criança, e a evidência acumulada sobre os efeitos do castigo físico, associado a mais agressividade, mais problemas de saúde mental e pior relação com quem o aplica, sem melhorar o comportamento a médio prazo.
Na prática traduz-se em coisas concretas: nomear a emoção antes de corrigir o comportamento, explicar o motivo da regra, oferecer alternativas em vez de ordens secas e sustentar o limite sem gritos nem ameaças. Não é um método fechado, mas um critério.
O que convém desmontar
O equívoco mais espalhado, e o que mais trava quem se aproxima disto, é confundi-la com permissividade. Não é. Criar sem violência não significa criar sem regras: significa que a regra se sustenta com explicação e presença em vez de com medo. Uma casa sem limites não é respeitosa com ninguém, muito menos com a criança, que precisa de saber onde está a fronteira.
O segundo é o argumento da própria biografia, aquele a mim bateram-me e não me aconteceu nada. É compreensível e quase nunca é útil: os estudos populacionais não medem trajetórias individuais, medem probabilidades, e a probabilidade de dano aumenta. Que alguém tenha saído ileso não torna a prática inócua.
Como se vive em Portugal e no Brasil
Em Portugal o castigo corporal a crianças não tem cobertura legal, e a discussão pública deslocou-se há muito da lei para a prática quotidiana, com um papel relevante das consultas de saúde infantil e das comissões de proteção de crianças e jovens. O que a lei não resolve sozinha é a crença herdada de que uma palmada a tempo educa.
No Brasil, a Lei 13.010 de 2014, conhecida como Lei Menino Bernardo, alterou o Estatuto da Criança e do Adolescente para proibir expressamente o castigo físico e o tratamento cruel ou degradante. Na América Latina no seu conjunto, porém, cerca de 64 % das crianças com menos de quinze anos sofre regularmente alguma forma de disciplina violenta, e quase uma em cada duas recebe castigo físico.
Como participar a 2 de setembro
- Troque uma ordem por uma explicação por dia: não é preciso reformar a criação inteira para começar.
- Nomeie a emoção antes de corrigir: reconhecer a zanga não valida o comportamento, desativa-o.
- Peça ajuda se estiver a transbordar: pediatria, serviços sociais e grupos de pais existem para isso.
- Reveja o exemplo, não apenas o discurso: os gritos entre adultos ensinam tanto como as regras.
- Evite julgar outras famílias em público: a culpa não muda comportamentos, o apoio muda.
Que 1 em cada 4 cuidadores continue a acreditar que bater educa explica por que razão proibir não bastou. O 2 de setembro não interpela a lei, que em boa parte do mundo já está escrita: interpela o costume. #DiaDaParentalidadeRespeitosa
Verificado pela redação de Dia Internacional
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