A medida sanitária que mais vidas salva por cada euro investido não é um fármaco nem uma máquina: é água, sabão e um sítio onde os usar. O Dia Mundial da Higiene assinala-se a 3 de setembro e existe para lembrar algo incómodo: em pleno século XXI, milhares de milhões de pessoas continuam sem poder lavar as mãos em casa.
História e origem da data
Convém dizê-lo sem rodeios: esta efeméride não nasce de uma resolução das Nações Unidas. Consolidou-se a partir de baixo, impulsionada por ministérios da saúde, universidades e ordens profissionais, com implantação especialmente forte na América Latina. Instituições da Argentina, do Paraguai, do Uruguai e do México incorporam-na todos os anos no calendário sanitário, e daí foi crescendo.
Também não deve confundir-se com outras duas datas próximas. A 5 de maio a OMS dedica uma jornada à higiene das mãos em unidades de saúde, dirigida a profissionais; e a 15 de outubro celebra-se o Dia Mundial da Lavagem das Mãos, centrado na infância. O 3 de setembro é a mais ampla das três: fala de higiene pessoal, doméstica e comunitária.
Porque continua a ser a medida mais rentável
Porque interrompe a transmissão antes de ela começar. Lavar as mãos com sabão corta a cadeia de contágio das diarreias, da hepatite A, da cólera, das infeções respiratórias e de boa parte das infeções cutâneas. Não exige diagnóstico, nem receita, nem pessoal qualificado, e o seu custo por caso evitado não tem comparação com nenhuma outra intervenção.
O problema não é de conhecimento, mas de infraestrutura. A maioria das pessoas sabe que deve lavar as mãos; o que falta, em centenas de milhões de casas, é o ponto de água. Por isso os indicadores internacionais não medem o que as pessoas dizem fazer, mas algo verificável: se na habitação existe uma instalação com água e sabão disponíveis.
O que convém desmontar
O equívoco mais espalhado é igualar higiene a esterilidade. Não são a mesma coisa: o objetivo é reduzir a carga de agentes patogénicos nos momentos críticos, não eliminar todas as bactérias do ambiente. O segundo erro é acreditar que o gel alcoólico substitui a água e o sabão. É útil quando não há lavatório por perto, mas perde eficácia com as mãos visivelmente sujas e não elimina bem determinados microrganismos. E o terceiro é reduzir a higiene ao gesto de antes das refeições, quando os momentos que mais pesam são outros: depois de ir à casa de banho, ao mudar uma fralda e antes de manipular alimentos crus.
Como se vive em Portugal e no Brasil
Em Portugal o acesso doméstico está resolvido, pelo que a conversa se deslocou para outro terreno: a higiene em unidades de saúde e lares, onde a adesão dos profissionais à lavagem das mãos continua a ser o principal fator evitável de infeção associada aos cuidados. A pandemia elevou os níveis de forma abrupta e depois boa parte desse hábito relaxou.
No Brasil a data tem um peso institucional bem maior, e não por acaso: a diferença entre o meio urbano e o rural, e entre bairros de uma mesma cidade, continua grande. Ali o 3 de setembro não é um lembrete de bons costumes, mas uma jornada de saúde pública com campanhas de secretarias, escolas e unidades básicas de saúde.
Como participar a 3 de setembro
- Reveja os momentos, não a técnica: a maioria sabe lavar as mãos, mas não o faz quando mais importa.
- Verifique o sabão, não só a torneira: sem sabão disponível, a instalação não conta como higiene básica.
- Se trabalha numa unidade de saúde ou escola, confirme que os dispensadores estão cheios e acessíveis a todas as alturas.
- Fale de água, não apenas de hábitos: na maior parte do mundo o obstáculo é a infraestrutura, não a vontade.
- Evite a mensagem culpabilizadora: ninguém escolhe não ter uma torneira em casa.
Que 611 milhões de pessoas não tenham onde lavar as mãos não é um problema de educação sanitária. É um problema de canalização, e por isso o 3 de setembro interpela mais quem planeia do que quem se lava. #DiaMundialDaHigiene