Em 1987, mais de cem mil pessoas reuniram-se na esplanada do Trocadéro, em Paris, para honrar as vítimas da fome, da violência e da miséria. Desse gesto nasceu uma data que hoje interpela o mundo inteiro: a cada 17 de outubro assinala-se o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, proclamado pela Assembleia Geral das Nações Unidas para lembrar que a pobreza não é um destino, mas uma violação dos direitos humanos que se pode e se deve combater.
História e origem do Dia Internacional
A origem tem nome próprio: o padre Joseph Wresinski, um sacerdote francês, filho de uma família pobre e fundador do movimento ATD Quarto Mundo. A 17 de outubro de 1987 convocou aquela histórica concentração no Trocadéro, frente à praça dos Direitos Humanos, e descerrou uma lápide comemorativa em honra das vítimas da miséria. Wresinski foi um dos primeiros a denunciar que a extrema pobreza é, em si mesma, uma violação dos direitos fundamentais.
Cinco anos depois, inspirada por aquele apelo, a Assembleia Geral da ONU declarou oficialmente o 17 de outubro Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza através da resolução 47/196, em 1992. Desde então, a data dá voz às pessoas que vivem na pobreza e coloca-as como protagonistas, e não como simples destinatárias de ajuda.
Porque se celebra?
Porque a pobreza vai muito além da falta de dinheiro. É não ter acesso a alimentos, água potável, saúde, educação ou uma habitação digna; é viver sem voz nem poder de decisão. A ONU insiste na sua dimensão multidimensional: duas pessoas com os mesmos rendimentos podem sofrer privações muito diferentes consoante o seu contexto. O dia procura tornar visível essa realidade e, sobretudo, ouvir quem a sofre, cujo conhecimento é imprescindível para desenhar soluções que resultem.
Os avanços que também existem
O retrato não é só sombrio. Nas últimas décadas o mundo alcançou um dos maiores progressos sociais da história: em 1990, cerca de 38 % da população mundial vivia em pobreza extrema; hoje esse valor ronda os 9 %. Centenas de milhões de pessoas, sobretudo na Ásia oriental, saíram da miséria graças ao crescimento económico, à educação e às políticas sociais. O problema é que esse avanço abrandou e concentra-se agora na África subsariana e em zonas afetadas por conflitos e crises climáticas, onde erradicá-la é muito mais difícil. A pandemia, a inflação dos alimentos e as guerras voltaram a empurrar milhões de pessoas para baixo do limiar, o que demonstra que o progresso não é irreversível: conquista-se e pode perder-se.
Como se vive em Portugal e no Brasil
Em Portugal, organizações como a Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN Portugal) e a ATD Quarto Mundo promovem ações de rua, leituras do compromisso do 17 de outubro e encontros onde as pessoas em situação de pobreza tomam a palavra. No Brasil, um dos países mais desiguais do planeta, a data mobiliza movimentos sociais e pastorais em torno do acesso a alimentos, habitação e trabalho digno, e serve para exigir aos governos políticas que ataquem a desigualdade estrutural e a fome que ainda atinge milhões de famílias. Em ambos os países, redes de solidariedade, bancos alimentares e instituições de apoio social multiplicam iniciativas nesta data, recordando que a pobreza não é uma abstração estatística, mas rostos concretos de pessoas privadas de direitos básicos.
Como participar
- Informa-te sobre a pobreza no teu próprio meio: muitas vezes está mais perto do que parece.
- Colabora com bancos alimentares e entidades sociais, com tempo ou donativos.
- Ouve as pessoas que vivem a pobreza sem preconceitos nem paternalismo.
- Consome de forma responsável e apoia o comércio justo.
- Difunde a mensagem com #DiaContraAPobreza.
O padre Wresinski deixou gravado naquela lápide do Trocadéro que «onde há pessoas condenadas a viver na miséria, os direitos humanos são violados; unir-se para os fazer respeitar é um dever sagrado». O 17 de outubro lembra-nos que erradicar a pobreza não é caridade, mas justiça.
#DiaContraAPobreza
Verificado pela redação de Dia Internacional
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