A 28 de setembro de 1980, a televisão pública norte-americana emitiu um episódio intitulado «As margens do oceano cósmico». Era o primeiro de Cosmos, e com ele Carl Sagan transformou a divulgação científica em algo que milhões de pessoas viam por gosto. Quarenta anos depois, essa data foi escolhida para o Dia Internacional da Cultura Científica, assinalado a 28 de setembro desde 2020 por iniciativa de sete organizações do México e da Costa Rica.
História e origem
A proposta nasceu em 2020 e não veio de um governo nem de um organismo internacional, mas de quem se dedica a divulgar. Foi impulsionada pela Sociedade Mexicana para a Divulgação da Ciência e da Técnica (SOMEDICYT) em conjunto com a MILSET, a Rede Nacional de Atividades Juvenis em Ciência e Tecnologia, a Rede Mexicana de Dinamizadores de Ciência e a Fibonacci, no México; e pela Fundação CIENTEC e o Laboratório Nacional de Nanotecnologia do CENAT, na Costa Rica.
Em março desse mesmo ano, Lidia Brito, então diretora do Escritório Regional de Ciências da UNESCO para a América Latina e as Caraíbas, apoiou publicamente a iniciativa e comprometeu-se a promover os trâmites junto das Nações Unidas.
Convém ser preciso quanto a isto, porque marca a diferença face a outras datas deste calendário: o Dia Internacional da Cultura Científica ainda não é um dia oficial da ONU nem consta da sua lista de observâncias. É uma comemoração impulsionada pela sociedade civil científica que se espalhou por adesão e não por decreto — e essa é, precisamente, a sua carta de apresentação.
Porque se assinala
Porque cultura científica e divulgação não são a mesma coisa, e confundi-las explica boa parte do problema. A divulgação é a atividade: escrever, expor, dar uma palestra. A cultura científica é o que fica depois numa sociedade: a capacidade de distinguir um estudo de uma opinião, de perceber o que significa «probabilidade» num boletim meteorológico, de saber que a ciência se corrige a si própria e que isso é uma virtude e não uma fraqueza.
Essa distinção tornou-se tangível durante a pandemia, quando milhões de pessoas tiveram de interpretar curvas, taxas e ensaios clínicos sem nunca o terem feito. E é a que explica que a data seja promovida também por redes como a RedPOP (a rede de popularização da ciência da América Latina e Caraíbas) e pelo Conselho Internacional de Museus.
Porquê 28 de setembro e não outro dia
A escolha da data é uma declaração de intenções. Não comemora o nascimento de um cientista nem uma descoberta, mas o dia em que a ciência se tornou televisão que as pessoas queriam ver.
Cosmos: uma viagem pessoal foi emitida em treze episódios ao longo do outono de 1980. Sagan não simplificou a ciência: contou-a como uma história, com o seu método, os seus erros e os seus becos sem saída incluídos. A série chegou a dezenas de países, foi dobrada em vários idiomas e criou uma geração inteira de vocações científicas que hoje dirigem laboratórios e museus.
Escolher esse aniversário em vez de uma efeméride académica diz algo sobre a própria celebração: a cultura científica não se mede em artigos publicados, mas em quanta gente alheia à ciência se interessa por ela.
Como se vive em Portugal e no Brasil
Em Portugal a data cai em pleno arranque do ano letivo e perto da Noite Europeia dos Investigadores, que decorre no final de setembro em várias cidades. A Agência Ciência Viva mantém a rede de centros de ciência mais densa do país ( do Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa, aos centros de Bragança, Faro ou Estremoz ) e é o canal natural para quem queira participar.
No Brasil, a divulgação científica tem um calendário próprio muito forte: a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, em outubro, e o trabalho continuado da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. O 28 de setembro funciona ali como antecâmara dessa programação, e várias universidades federais aproveitam-no para abrir os seus laboratórios ao público.
Vale a pena notar uma coisa: nenhum país de língua portuguesa está entre os fundadores da data, apesar de Portugal e Brasil terem duas das redes de divulgação mais consolidadas do mundo lusófono. É um espaço por ocupar mais do que uma ausência.
Como participar
- Qualquer instituição pode aderir registando a sua atividade no sítio oficial da celebração. Não é preciso ser um centro de investigação: servem bibliotecas, escolas e associações.
- Visitar um centro de ciência ou um museu nesse dia, ou no fim de semana mais próximo.
- Partilhar uma fonte científica fiável em vez de um título. A cultura científica constrói-se escolhendo de onde se lê.
- Ver ou rever um episódio de Cosmos. É literalmente o motivo da data.
- Quem trabalha em ciência, dedicar esse dia a explicar o que faz a alguém de fora da sua área.
Sagan dizia que vivemos numa sociedade profundamente dependente da ciência e da tecnologia, na qual quase ninguém sabe nada de ciência nem de tecnologia. Quarenta e cinco anos depois, a frase continua a explicar porque é preciso um dia como este.
#DiaInternacionalDaCulturaCientífica
Verificado pela redação de Dia Internacional
Revisto a